AKAA PARIS 2021
António Ole | Mário Macilau | Keyezua | Kwame Sousa
O Sul Global sempre foi afetado por uma história violenta. No passado e no presente. Nossa contemporaneidade, no entanto, se apropria da capacidade humana de negociação para contornar essa violência histórica usando várias ferramentas e modus operandis. A arte africana contemporânea e sua diáspora, que hoje ressoam fortemente especialmente em ambientes como o AKAA, têm sido relevantes para o questionamento, tanto frontal quanto negocial, dessas narrativas hegemônicas.
Compreender as possibilidades e os limites dessas interseções é o que o trabalho desses artistas, que a MOVART apresenta, configura como novos ares da abordagem temporal-espacial para a compreensão do sul em relação ao norte global.
António Olé, por exemplo, nos seus 50 anos de criação ativa, resume diferentes contextos económicos, sociais e políticos angolanos, que contemplam periodicidades coloniais e pós-coloniais. Sua multiplicidade de técnicas, que convergem pintura, vídeo, instalação, colagens e outras, estabelece diálogos prementes sobre o que o globo considera como questões fundamentais através do que experimentou em seus longos séculos.
Mário Macilau, especialmente na sua série Círculo de Memórias, fala diretamente da proposta conceptual desta edição da AKAA: a resiliência construída em torno de vários novos projetos. A resiliência de Macilau é sobretudo determinada por um recurso coreográfico de memória. Este recurso da memória, que muitas vezes é tratado com ligeireza como um papel frágil em frente ao fogo, como se vê em Crescer na Escuridão, que concentra uma obra destinada às crianças de rua. Lembre-se, isso não é exótico. É violento, como a história.
Por outro lado, Lola Keyezua, artista multidisciplinar cuja prática se materializou em configurações e dilemas contemporâneos de representatividade racial e de género, apresenta-nos linguagens intensas e variadas que confrontam narrativas que não pretendem “honrar-nos, amar os nossos corpos”, como escreve Bell Hooks. A GRANDE MAMAAAN, Fuba, Olhe para ela, Geração Real são exemplos das obras de Keyezua que simbolizam esse novo poder que honra a maternidade, a sexualidade, a fertilidade e o erotismo no contexto de vulnerabilidade econômica e social.
Kwame Sousa é um artista verdadeiramente multidisciplinar que explora uma vasta gama de meios, técnicas e estilos. Sousa aprofunda o debate ao criar uma escola informal como espaço para conceber e rebater conceitos estéticos. Esse espaço informal demarca-se da área urbana e atua na periferia como uma academia que ensina, treina e permite trocas.
O ponto de convergência desses trabalhos está na atribuição temporal que cada um articula. Se para Antonio Olé a arte tem uma visão planetária, Macilau recorre ao passado de um território para produzi-lo, enquanto Keyezua chama a atenção da humanidade para o dilema da cor e do gênero, e Kwame Sousa se apresenta ao debate sobre estruturas sociais para produzir arte.





