CONSTRUCTIO

Notas sobre construir, imaginar e reinscrever 

Derivado do latim, CONSTRUCTIO designa, segundo o Le Petit Robert, a manière dont une chose est construite — o modo como algo é construído. Mais do que uma definição técnica, o termo convoca uma dimensão processual e relacional: construir implica selecionar, organizar e dar forma, mas também imaginar, projetar e inscrever sentido. Nesta exposição, constructio torna-se metáfora do processo artístico, aproximando-se da ideia de que o real não é dado, mas continuamente produzido, uma perspetiva que encontramos no pensamento de autores como Bruno Latour ou Tim Ingold, para quem o mundo é resultado de relações em curso, e não de estruturas estanques.

As obras dos seis artistas exploram cartografias de lugares reais e imaginados, onde memória, território e imaginação se entrelaçam. Cada obra é um ato de constructio: do desejo de afirmar identidades à (re)construção do real, da apropriação de símbolos e memórias à consolidação do vernacular como espaço sócio-político, ou ainda do imaginado como exercício lúdico e experimental. 

Entre memória e ficção, os lugares emergem como espaços em constante reconfiguração. Mais do que representar, estas obras constroem mundos sensíveis, narrativas e modos de ver, convidando o público a habitar, sentir e repensar o mundo. Ao trabalhar sobre vestígios, símbolos e narrativas, as obras revelam que a experiência é sempre construída, e que a cartografia deixa de ser apenas um instrumento de representação e passa a ser uma forma de experimentar, habitar e reinterpretar o espaço, aproximando-se da visão de Michel de Certeau que descreve como modos de ‘praticar o espaço’. Neste sentido, esta exposição evoca constructio como dispositivo crítico, propondo leituras que desestabilizam dicotomias como a de natureza e cultura, real e imaginado ou mesmo de objeto e processo. Ao recusar fronteiras fixas, estas obras oferecem modos de conhecimento situados, parciais e incorporados. O vernacular emerge num campo de inscrição sociopolítica, onde memória e identidade se negociam, enquanto o imaginado se afirma como ferramenta epistemológica, não como fuga, mas como possibilidade de reconfigurar o real e a própria experiência de existir.

Vista da exposição
Evento