ARCO LISBOA 2023
Fidel Évora
Em ‘Safe Space’, Fidel Évora (n. 1984, Cidade da Praia, Cabo Verde) transporta-nos pelos meandros de um mundo presente, mas escondido: aquele que está por detrás do brilho das lojas, do glamour das vitrines e do espetáculo da sociedade de consumo. Évora reflete sobre ‘o Outro’ lado das coisas: os trabalhadores que, pela sua invisibilidade, sustentam o parque de diversões dos consumidores. Uma vez que o sistema continua a recusar o encontro entre riqueza/trabalho e elite/ralé, Évora provoca nesta exposição instalada na ARCO Lisboa2023, o seu encontro. O visitante é obrigado a ver os dois lados da questão, a sentir a presença constante deste trabalhadores, na sua maioria mulheres. O artista relembra-nos o esquecimento que domina a sociedade contemporânea ocidental, onde tudo é consumido sem saber quem, onde e como é produzido o confortável mundo em que vivemos.
Fidel Évora começou por refletir como o mundo pouco mudou desde o aparecimento dos Palácios de Cristal, que albergaram as exposições universais de Londres e de Paris, durante a segunda metade do século XIX, até aos dias de hoje. Estas mecas do consumo e da modernidade têm mantido uma estética particular em que o vidro é protagonista. Aqui, o vidro serve para alertar o consumidor que existe um mundo que ele não vê – porque tal não lhe é permitido –, mas que, na realidade, prefere não ver. Símbolo de transparência e, por conseguinte, indicia-dor de honestidade e de integridade, o vidro é hoje usado pelas ins-tituições mais ligadas ao capitalismo selvagem: bancos, aeroportos e centros comerciais. Se nas exposições universais de 1800 estes dois mun-dos se encontravam lado a lado num ‘zoo humano’ (Harskamp 2020), hoje eles continuam segregados, mas não se encontram fisicamente. Para Évora, passaram 150 anos e pouco mudou para uns e para outros. O artista navega e questiona os espaços comerciais de hoje – entre as quais a ARCO de Lisboa, uma feira de arte dirigida à sociedade cosmo-polita e endinheirada – onde se pode encontrar, de forma privilegiada, o que melhor se produz em termos artísticos na atualidade.








